Filosofia da Estatística

Fundamentos
Filosofia
Inferência
Probabilidade, testes e interpretações da evidência estatística.

Não precisamos de saber R para acompanhar esta página. Começamos por uma moeda e por três perguntas sobre evidência, decisão e erro; depois podemos seguir para as contas nos Fundamentos da Inferência. Quem já conhece essa entrada pode ir directamente às tradições da inferência, ao teste severo de Mayo ou à controvérsia histórica.

0 Uma Moeda, Dez Lançamentos

Lançamos uma moeda dez vezes. Sai cara seis vezes e coroa quatro.

Se a moeda for equilibrada, esperamos metade dos lançamentos de cada lado, em média, ao longo de muitas repetições. Em dez lançamentos, isso dá cinco caras. Mas ninguém prometeu que cada série de dez terminaria exactamente em cinco caras e cinco coroas.

Seis caras são motivo para desconfiar da moeda?

O Que Aconteceria Com Uma Moeda Justa?

Imaginem que suspeitamos, antes dos lançamentos, de que a moeda favorece caras. Se for justa, cada lançamento independente tem probabilidade .5 de dar cara. Podemos calcular o que aconteceria se repetíssemos muitas vezes a série de dez lançamentos sob essas condições.

A probabilidade de obter exactamente seis caras é cerca de 20.5%. Mas se estamos à procura de um excesso de caras, também contam os resultados ainda mais desequilibrados na mesma direcção: sete, oito, nove ou dez.

Caras em dez lançamentos Probabilidade de exactamente esse resultado Probabilidade de obter esse resultado ou mais caras
6 20.5% 37.7%
7 11.7% 17.2%
8 4.4% 5.5%
9 1.0% 1.1%
10 0.1% 0.1%

A última coluna soma, em cada linha, a probabilidade desse resultado e de todos os que têm mais caras. Chama-se uma probabilidade acumulada na cauda superior. Para seis caras, somamos as probabilidades de seis, sete, oito, nove e dez, e obtemos aproximadamente .377 (ou 37.7%).

Façamos a pergunta em português corrente: se a moeda fosse justa, seria habitual obter pelo menos seis caras em dez lançamentos? Sim. Aconteceria em mais de um terço das séries. Não temos aqui uma grande razão para desconfiar.

Agora imaginem oito caras. A probabilidade acumulada já é cerca de 5.5%. Com nove, é 1.1%; com dez, aproximadamente 0.1%. A surpresa aumenta. Em que ponto começariam a desconfiar seriamente?

Há uma escolha que interessa esclarecer. Contámos apenas resultados com mais caras, porque essa era a suspeita formulada. Se a pergunta fosse simplesmente «a moeda é viciada?», também teríamos de contar desequilíbrios a favor de coroas. Para seis caras, a probabilidade de um resultado pelo menos tão desequilibrado, em qualquer direcção, seria aproximadamente 75.4%. As duas perguntas conduzem a cálculos diferentes. Convém decidir qual delas fazemos antes de olhar para o resultado.

Ainda não precisamos de decorar nomes nem de escolher um limiar universal. Já temos uma ideia útil: podemos comparar uma observação com os resultados que um processo bem especificado conseguiria produzir.

Da Surpresa à Evidência, à Decisão e ao Erro

Três perguntas diferentes nasceram desta moeda. Vão ajudar-nos a compreender três perspectivas essenciais para o resto do site.

Primeira pergunta: quanto é que os dados põem em causa o modelo? O nosso resultado foi comparado com aquilo que uma moeda justa produziria. Nove caras dão-nos mais razões para questionar esse modelo do que seis. Ronald Fisher tornou influente esta maneira de usar resultados progressivamente menos compatíveis com um modelo de referência. O número que calculámos, incluindo os resultados tão ou mais extremos na direcção escolhida, é aquilo a que chamamos um valor-p.

Segunda pergunta: quando decidimos que há motivo suficiente para agir ou rejeitar o modelo? Podemos estabelecer uma regra antes da experiência, por exemplo rejeitar o modelo de moeda justa quando a probabilidade de cauda superior for, no máximo, .05. Com apenas dez lançamentos, essa regra rejeitaria a partir de nove caras: oito ainda correspondem a cerca de .055. Como os resultados possíveis são discretos, a probabilidade de rejeitar injustamente uma moeda justa com esta regra é cerca de 1.1%, não exactamente 5%.

Jerzy Neyman e Egon Pearson tornaram central a comparação entre regras: quantas vezes rejeitariam uma hipótese que fosse verdadeira e quantas vezes conseguiriam detectar alternativas relevantes? Isso ajuda a escolher procedimentos e a justificar decisões. Há também um objectivo de aprendizagem científica nessa preocupação com erros; reduzi-la a uma mera escolha de comportamentos seria historicamente pobre.

Terceira pergunta: o nosso teste tinha boas condições para descobrir que estávamos enganados? E se a moeda favorecesse ligeiramente caras, mas dez lançamentos fossem poucos para revelar o desvio? Obter seis caras não demonstraria que é justa. E até dez caras exigiriam verificar que a moeda foi lançada de forma adequada e que o modelo de referência fazia sentido.

Deborah Mayo coloca esta questão no centro da sua abordagem de error statistics: se uma afirmação estivesse errada de uma maneira importante, o teste teria uma boa oportunidade de o mostrar? Isso liga as propriedades dos testes àquilo que podemos aprender com um resultado concreto (Mayo & Spanos, 2006; Mayo, 2018).

Já temos, assim, um primeiro percurso completo: um modelo, observações, uma medida de discrepância, uma possível regra de decisão e a pergunta sobre o que o teste seria capaz de revelar. As três perguntas merecem respostas próprias. Voltaremos a cada uma com mais precisão, em vez de pedir ao leitor que as aprenda todas de uma vez.

NotaA Perspectiva Deste Site

Neste site, as análises que vamos aprender a fazer são frequentistas. Vamos explicar o Bayesianismo como uma alternativa inferencial importante, mas não vamos ensinar aqui a ajustar modelos bayesianos no R.

A perspectiva de error statistics de Deborah Mayo orienta boa parte da discussão. Interessa-nos perceber o que um estudo conseguiu pôr à prova, o que ficou por testar e que conclusões os resultados sustentam. Apresentamos também outras tradições com seriedade; o desacordo filosófico faz parte da matéria.

A selecção, a ordem e a forma de apresentar muitos destes temas devem muito, sobretudo, às aulas e discussões com Leonel Garcia-Marques, e também ao que aprendi com Mário Boto Ferreira, na FPUL. Dienes (2008) foi outra influência importante, sobretudo na forma de ligar filosofia da ciência e filosofia da inferência estatística à prática da Psicologia. A perspectiva de error statistics de Deborah Mayo é identificada separadamente acima porque influencia de forma substantiva a posição adoptada neste capítulo. A organização, exemplos e síntese desta página são meus e não pretendem reproduzir as posições de nenhuma destas fontes.

Como fazemos estas contas com outros dados? Numa primeira leitura, podemos passar agora aos Fundamentos da Inferência: a moeda dá lugar a uma tarefa auditiva, depois a um dado e finalmente a médias. Se a pergunta já for como varia uma média entre amostras, podemos entrar em Da Amostra à População.

A discussão aprofundada continua nesta página. As secções seguintes recordam o papel do modelo e do valor-p antes de desenvolverem as tradições da inferência. Não precisamos de ler toda a história, o Bayesianismo ou os intervalos antes de acompanhar as contas.

1 Da Moeda aos Modelos

Mudar a Probabilidade Muda a Distribuição

A moeda tinha duas faces e, no modelo de referência, cada uma tinha probabilidade .5. Não há nada de especial no número .5 para a lógica que usámos. O que importa é saber qual é o processo aleatório que estamos a tomar como referência.

Num dado justo, contar «sair seis» dá uma probabilidade de sucesso de 1/6, em vez de .5. Continuamos a contar sucessos em tentativas independentes, mas a distribuição de referência muda. Mudar o número de tentativas também muda essa distribuição: a proporção observada, sozinha, não basta para avaliar a discrepância.

Esta família de modelos chama-se distribuição binomial. Os Fundamentos da Inferência mostram como a construímos e como calculamos as probabilidades na tarefa auditiva e no dado.

Estas contas não exigem que saibamos construir um modelo completo para uma moeda viciada ou um dado adulterado. Construímos primeiro a distribuição sob o modelo que queremos pôr à prova. Isso torna o teste possível, mas não identifica automaticamente a explicação de qualquer discrepância que encontremos.

O Que Pergunta um Valor-p?

Já calculámos um valor-p no início desta página: .377 para seis ou mais caras quando o modelo é uma moeda justa e a pergunta é um excesso de caras.

Damos um nome ao modelo que estamos a pôr à prova: hipótese nula, \(H_0\). Escolhemos também uma maneira de medir a discrepância e o que contaria como resultado «tão ou mais extremo». Então:

\[ p=P(\text{resultado tão ou mais extremo do que o observado} \mid H_0,\text{ modelo e procedimento}). \]

Para a moeda com a pergunta unilateral, tratámos como extremos os resultados com pelo menos tantas caras como as observadas. Se a pergunta fosse bilateral, também contaríamos resultados extremos na outra direcção. O procedimento faz parte da definição; não podemos escolher a cauda que dá o menor número depois de olhar para os dados.

Esta probabilidade é calculada se o modelo de referência for válido. Não é a probabilidade de \(H_0\) ser verdadeira depois de vermos os dados, nem identifica por si só a razão pela qual um resultado ocorreu.

O cálculo exacto de probabilidades binomiais, e mais tarde de áreas sob uma distribuição t, está desenvolvido nos Fundamentos da Inferência. Aqui vamos examinar por que podemos usar a mesma matemática para responder a perguntas filosóficas e científicas diferentes.

Para Que Serve a Estatística?

Podemos usar estatística para várias tarefas diferentes:

  • descrever dados;
  • explorar padrões;
  • estimar quantidades desconhecidas;
  • prever novos casos;
  • testar afirmações;
  • comparar modelos;
  • apoiar decisões sob incerteza.

Estas tarefas não são sinónimas. Um método bom para previsão pode não responder a uma pergunta causal. Um procedimento que controla uma taxa de erro pode não atribuir uma probabilidade à hipótese. Uma análise que estima um parâmetro pode ser informativa mesmo sem produzir uma decisão binária.

Um exemplo simples ajuda. Suponham que queremos estudar se dormir mais melhora a atenção. Podemos resumir os dados, estimar uma diferença, testar a compatibilidade com um modelo nulo, perguntar que diferenças o estudo teria capacidade para detectar, construir uma distribuição posterior, prever novos casos ou tomar uma decisão. São perguntas relacionadas, mas não são a mesma pergunta.

DicaUm Princípio Para Guardar

Antes de escolher uma técnica, escrevam em linguagem corrente: o que quero aprender com estes dados? Depois perguntem que procedimento responde a essa pergunta e que erros continua a permitir.

Descrever Não É Inferir

A estatística descritiva resume os dados que temos. Uma média, um desvio- padrão ou um gráfico podem condensar centenas de observações. Essa compressão é útil, mas perde informação.

A inferência estatística tenta ir além da descrição dos casos observados. Pode procurar aprender sobre uma população, uma discrepância, um parâmetro, um modelo ou uma previsão futura. É nesse salto para além dos dados imediatos que entram pressupostos, probabilidades de erro e diferentes interpretações da probabilidade.

Prever Não É Explicar

Um modelo pode prever sem identificar um mecanismo causal. Uma associação entre consumo de gelados e afogamentos pode ter utilidade preditiva em certas épocas do ano sem implicar que os gelados causem afogamentos. Temperatura e exposição a praias ou piscinas são explicações alternativas plausíveis.

Estatística Não Repara Maus Estudos

Nenhuma análise transforma uma amostra enviesada numa amostra representativa, uma medida fraca numa boa medida ou um delineamento confundido numa experiência que permita identificar uma causa. Isto liga directamente esta página a Filosofia da Ciência: um teste estatístico é apenas uma parte de um pacote maior de hipóteses, medições, auxiliares e escolhas de delineamento.

2 Tradições da Inferência

A moeda deu-nos três perguntas iniciais. Agora podemos perceber com mais cuidado o que Fisher e Neyman–Pearson procuravam fazer e como Mayo usa aspectos das duas tradições. A história não cabe numa oposição simples entre «evidência» e «decisão»: as perguntas eram diferentes, mas ambas interessavam à investigação científica.

Fisher: Significância Como Evidência

Voltemos à moeda: quanto mais raro for obter um resultado naquela direcção sob o modelo justo, mais razões teremos para questionar esse modelo, desde que o modo como definimos e executámos o teste seja defensável.

Fisher popularizou testes de significância para investigadores experimentais em Statistical Methods for Research Workers (Fisher, 1925). O valor \(P\) permitia perguntar quão surpreendente seria um resultado pelo menos tão discrepante como o observado se o modelo nulo fosse adequado.

Há aqui uma ideia extremamente económica. Muitas vezes é difícil especificar, com detalhe suficiente para gerar uma distribuição de dados, como seria o mundo se a nossa explicação substantiva estivesse certa. Em contraste, pode ser muito mais fácil especificar uma fonte de variação aleatória e perguntar: como seriam os dados se houvesse apenas esse processo de referência?

É esse o trabalho de \(H_0\). Não precisa de ser uma descrição completa do mundo. Funciona como um modelo deliberadamente restrito contra o qual conseguimos deduzir uma distribuição de resultados possíveis. Fisher sublinhava precisamente a importância de conhecer a distribuição amostral das estatísticas sob uma especificação hipotética e usar essa distribuição para testar se os dados estão em harmonia com ela (Fisher, 1925, cap. I).

NotaA Economia da Ideia de Fisher

Para testar uma explicação não precisamos sempre de conseguir modelar, de imediato, tudo o que esperamos ver se estivermos certos. Podemos começar por uma pergunta mais austera:

Se só estivesse a operar este modelo de referência, quão estranho seria o que observámos?

Isso transforma um problema científico potencialmente muito rico numa pergunta probabilística que conseguimos calcular. O preço é igualmente importante: rejeitar \(H_0\) diz que o modelo de referência não chega para explicar o resultado; não identifica automaticamente qual das muitas alternativas é a explicação correcta.

Fisher também não tratou 5% como um nível universal para toda a investigação. Na obra posterior insistiu que o investigador devia considerar cada caso à luz da evidência e do problema científico, e criticou a transformação dos testes de significância em regras automáticas de aceitação ou rejeição (Fisher, 1955; Kennedy-Shaffer, 2019).

A história de .05 e .01 fica para depois da comparação com Neyman–Pearson.

NotaFisher Foi Sempre Claro Sobre a Probabilidade?

Fisher distinguia a probabilidade de cauda da probabilidade de uma hipótese depois dos dados. Não há boa base histórica para lhe atribuir a leitura do valor-p como \(P(H_0\mid D)\). Antes de 1930, rejeitava explicitamente a probabilidade inversa como justificação geral para atribuir probabilidades a parâmetros desconhecidos.

Isso não torna os seus textos sempre fáceis de interpretar. Aldrich (2000) mostra que, em 1925 e 1928, Fisher usava palavras como «provável», «provavelmente» e «presunção» ao falar de limites inferenciais, sem lhes associar sempre uma probabilidade formal.

Em Inverse Probability (1930), Fisher propõe a probabilidade fiducial para fazer afirmações probabilísticas sobre parâmetros sem recorrer a um prior. Aldrich aponta lacunas, ambiguidades e contradições nessa exposição. Fisher viria a reformular a justificação do argumento fiducial. A sua maneira de passar das distribuições amostrais à inferência sobre parâmetros mudou ao longo do tempo, e uma frase isolada dificilmente dá conta desse percurso.

Neyman–Pearson: \(H_1\), Erro e Poder

Jerzy Neyman e Egon Sharpe Pearson desenvolveram em colaboração uma teoria diferente de testes estatísticos. Os artigos de 1928 já desenvolvem o papel de alternativas e critérios de teste (Neyman & Pearson, 1928a; 1928b). O artigo clássico de 1933 formaliza o problema de escolher testes eficientes quando \(H_0\) compete com alternativas e torna centrais as probabilidades de erro (Neyman & Pearson, 1933a).

Há uma diferença de ênfase em relação à pergunta inicial de Fisher. Podemos perguntar, antes de lançar a moeda, que regra distinguiria bem uma moeda justa de outras moedas que nos interessasse detectar. Com dez lançamentos e a regra unilateral de .05 do nosso exemplo, rejeitaríamos a moeda justa a partir de nove caras. Essa regra controla a probabilidade de rejeições erradas sob a hipótese nula. A sua capacidade de reconhecer uma moeda que favoreça caras depende de quanto ela as favorece.

A mudança conceptual é importante:

  • em Fisher, \(H_0\) funciona sobretudo como modelo de referência contra o qual avaliamos a discrepância observada;
  • em Neyman–Pearson, precisamos de alternativas para avaliar que testes distinguem melhor situações relevantes e que inferências o seu desempenho ajuda a justificar;
  • \(\alpha\) controla a frequência de rejeitar \(H_0\) quando \(H_0\) é verdadeira;
  • \(\beta\) depende do valor verdadeiro considerado sob a alternativa;
  • o poder, \(1-\beta\), também depende desse valor.

Isto corrige uma maneira muito comum de falar. Um estudo não tem simplesmente «80% de poder para detectar um efeito». O poder é uma função dos valores que poderiam ser verdadeiros:

\[ \pi(\theta) = P_\theta(\text{rejeitar } H_0). \]

Ou seja: o poder é uma curva. Para cada valor possível de \(\theta\) existe uma probabilidade diferente de rejeitar \(H_0\). O que habitualmente aparece num artigo, numa análise de poder ou num cálculo de tamanho amostral é apenas um ponto dessa curva.

Quando dizemos «80% de poder», estamos normalmente a omitir a continuação da frase: 80% de poder se o verdadeiro parâmetro for este valor específico, mantendo também fixas as restantes suposições do cálculo. A linguagem corrente transforma assim uma função inteira num único número e pode dar a impressão errada de que «o poder» é uma propriedade fixa do estudo.

Na ilustração de uma amostra que vamos usar, \(d\) é a diferença estandardizada entre a média populacional \(\mu\) e o valor de referência \(\mu_0\): \(d=(\mu-\mu_0)/\sigma\), onde \(\sigma\) é o desvio-padrão populacional. A diferença fica expressa em unidades de desvio-padrão, em vez de palavras recordadas, segundos ou outra unidade da medida. Assim, \(d=.50\) corresponde a meio desvio-padrão. Noutros delineamentos, precisamos de indicar qual é a diferença e qual é o desvio-padrão usado para a estandardizar.

Por exemplo, dizer que planeámos um estudo para detectar um «efeito médio» não faz desaparecer esta dependência. Se «médio» significar, por convenção, \(d=0.50\), então o cálculo está a avaliar o procedimento no ponto \(d=0.50\). Se o verdadeiro efeito for \(d=0.20\), o poder é outro; se for \(d=0.80\), é outro. O rótulo pequeno/médio/grande apenas esconde temporariamente o valor numérico que entrou no cálculo.

Como se obtém cada ponto dessa curva? Nos Fundamentos da Inferência, podemos ver o que acontece às áreas de rejeição quando mantemos a regra e mudamos a diferença populacional. Aqui interessa-nos perceber o que fica por dizer quando resumimos o poder num único número.

Mesmo perto do ponto convencional \(d=.50\), a diferença pode ser substantiva. A figura seguinte usa apenas um exemplo ilustrativo: teste t bilateral de uma amostra, \(N=30\), \(\alpha=.05\). A faixa \(d=.40\)–\(.60\) não é uma definição formal de «médio»; serve apenas para mostrar que uma etiqueta de T-shirt pode esconder valores com poderes bastante diferentes.

Curva crescente de poder em função de d para um teste t bilateral com N igual a 30 e alfa igual a .05. Estão assinalados d igual a .40, .50 e .60 com rótulos destacados.

O poder é uma curva. Mesmo numa faixa estreita em torno de d = .50, a probabilidade de rejeitar H0 pode mudar bastante.

Neste delineamento fixo, o poder passa aproximadamente de 0.56 em \(d=.40\) para 0.89 em \(d=.60\). Mesmo nesta faixa estreita, o número muda bastante. «80% de poder» é um ponto numa curva, não uma propriedade única do estudo.

Neyman–Pearson estudam tanto alternativas simples como problemas mais gerais com alternativas compostas. Por isso, é mais rigoroso dizer que o poder é avaliado ponto a ponto ao longo de \(H_1\) do que dizer que \(H_1\) tem necessariamente de ser uma hipótese pontual. Mas qualquer número de poder isolado corresponde sempre a algum ponto — ou conjunto de pressupostos muito específico — dessa função.

NotaPorque o Poder É Mais Exigente

Sob \(H_0\), muitas vezes conseguimos especificar um modelo de referência simples: por exemplo, diferença zero mais variabilidade aleatória. Para calcular poder, temos de perguntar também como seria a distribuição dos dados se um valor alternativo concreto fosse verdadeiro.

É aqui que a teoria de Neyman–Pearson mostra a dificuldade que Fisher podia evitar num teste de significância puro. Não basta modelar o ruído sob o nulo. Precisamos de especificar uma alternativa, a dimensão do efeito, o tamanho amostral, a variabilidade e as restantes condições relevantes. Só então podemos calcular a probabilidade de a regra rejeitar \(H_0\) nesse mundo alternativo.

Apresentar Neyman–Pearson como uma teoria exclusivamente comportamental, sem qualquer interesse na aprendizagem científica, também empobrece a história. Mayo (1992) reconstrói a posição de Egon Pearson e argumenta que preocupações epistémicas com a distinção entre efeitos genuínos e espúrios participaram no desenvolvimento desta teoria. A utilização de regras de decisão e taxas de erro não determina, por si só, uma interpretação filosófica única de tudo o que se pode aprender com um teste.

A contribuição de Pearson não deve desaparecer dentro da abreviatura «Neyman». A teoria nasceu de uma colaboração intelectual documentada nos artigos conjuntos e na reconstrução histórica de Lehmann (2011). Neyman e Pearson (1933b) discutiram até a relação dos seus testes com probabilidades a priori, o que por si só mostra como a história é mais rica do que slogans posteriores.

Isto leva directamente ao teste severo de Mayo: que relação pode existir entre propriedades do procedimento e aquilo que aprendemos com este resultado em particular?

Mayo e o Teste Severo

A moeda ajuda-nos a perceber por que precisamos de mais uma pergunta. Seis caras não mostram que a moeda é justa: um teste com dez lançamentos pode não ter sido sensível a desvios modestos. E uma rejeição da hipótese de moeda justa, mesmo quando bem fundamentada, não identifica a causa do desequilíbrio.

Deborah Mayo procura reorganizar elementos úteis de Fisher e de Neyman–Pearson para avaliar quão bem uma afirmação foi posta à prova. A sua abordagem de error statistics parte desta pergunta:

Se esta afirmação estivesse errada de uma maneira importante, o teste teria tido uma boa oportunidade de mostrar isso?

Mayo e Spanos (2006) distinguem propriedades do procedimento avaliadas antes dos dados de uma avaliação inferencial feita depois dos dados para uma afirmação e um resultado concretos.

Antes dos dados, podemos estudar taxas de erro, poder e sensibilidade. Depois dos dados, perguntamos se uma afirmação específica passou um teste que teria tendência para produzir um resultado menos favorável caso essa afirmação estivesse errada de uma forma relevante.

Uma Ponte Entre Fisher e Neyman–Pearson

É aqui que Mayo aproxima ideias que a narrativa «Fisher contra Neyman–Pearson» costuma separar: de Fisher retém a preocupação com evidência num resultado concreto; de Neyman–Pearson usa o desempenho do procedimento sob alternativas para avaliar quão capaz era o teste de descobrir um erro. A severidade não elimina diferenças históricas entre as escolas. Propõe uma maneira de usar probabilidades de erro para avaliar a força probatória de uma inferência concreta (Mayo, 2018).

É esta a contribuição de error statistics que nos interessa: relacionar as propriedades do teste com as afirmações que o resultado sustenta. Mayo e Spanos (2006) argumentam que as probabilidades de erro não servem apenas para orientar comportamentos futuros; podem ajudar a justificar inferências após observarmos os dados. Trata-se de uma posição filosófica substantiva, sujeita a debate, que adoptamos aqui pelas razões expostas no início.

DicaPré-Dados e Pós-Dados
  • Pré-dados: que erros este procedimento controla? Que efeitos consegue detectar?
  • Pós-dados: dado o resultado que obtivemos, que afirmações passaram um teste capaz de as pôr realmente em risco?

Confundir estas perguntas é uma fonte importante de mal-entendidos.

A severidade acompanha a afirmação concreta. Num teste adequado, um resultado pode dar bom apoio à existência de uma discrepância relativamente a zero sem sustentar que ela excede uma magnitude importante. Para a atribuir a uma intervenção ou generalizar a outros contextos, precisamos também de justificar o delineamento e a medição.

O baixo poder para um efeito especificado, por si só, não invalida uma detecção que ocorreu. Precisamos de avaliar o resultado observado e a discrepância que se pretende sustentar (Mayo & Spanos, 2006, secções 5.2–5.4).

Também vale a pena ler Mayo (1992) sobre o papel epistémico de Egon Pearson e a reconstrução histórica de Mayo (2018, Tour III). A controvérsia histórica fica aberta a quem quiser seguir os argumentos nas fontes.

História e Controvérsias

De Onde Vieram .05 e .01?

Os valores \(.05\) e \(.01\) não apareceram por uma única razão. Tornaram-se convencionais por uma sequência de escolhas históricas que se reforçaram umas às outras. Há também uma distinção de linguagem importante: Fisher discutia valores \(P\) e níveis de significância; \(\alpha\) como taxa de erro escolhida antes dos dados pertence à teoria de Neyman–Pearson. Por isso, quando hoje falamos informalmente da história de «\(\alpha=.05\)», estamos a juntar tradições que originalmente não eram idênticas.

Os principais passos foram estes:

  • Já existia uma regra aproximada antes de Fisher. No início do século XX, resultados eram avaliados através de múltiplos do chamado erro provável. A tradição de tratar desvios próximos de dois desvios-padrão como especialmente notáveis antecede Statistical Methods for Research Workers (Cowles & Davis, 1982).
  • Fisher deu a 5% uma formulação explícita e muito influente. Em 1925 observou que \(P=.05\) corresponde a cerca de 1.96 desvios-padrão e apresentou esse ponto como um limite conveniente para julgar significância (Fisher, 1925, cap. III). Noutro capítulo descreveu a regra de duas vezes o erro-padrão, aproximadamente equivalente a \(P=.05\), como uma convenção prática (Fisher, 1925, cap. V).
  • O próprio Fisher admitia outros níveis. Em 1926 referiu explicitamente 2% e 1% como alternativas mais exigentes, embora dissesse preferir 5% como padrão baixo de significância (Fisher, 1926). Isto ajuda a explicar por que \(.05\) e \(.01\) ficaram associados como referências de exigência diferente, em vez de 5% surgir como uma constante científica especial.
  • As tabelas favoreceram um pequeno conjunto de valores fáceis de consultar. Na tabela de \(\chi^2\), Fisher escolheu valores específicos de \(P\) e imprimiu os valores críticos correspondentes, em vez de tentar tabular todas as probabilidades possíveis (Fisher, 1925, cap. IV). Para a distribuição de \(z\), a primeira edição oferece uma pequena tabela para \(P=.05\) e observa que acrescentar \(P=.01\) provavelmente cobriria as necessidades correntes (Fisher, 1925, cap. I). Quando calcular probabilidades exactas à mão era trabalhoso, consultar valores críticos impressos tornava estes pontos especialmente fáceis de reutilizar.
  • Neyman e Egon S. Pearson deram aos níveis escolhidos um papel diferente. Na sua teoria de testes, uma taxa \(\alpha\) é fixada antes dos dados como probabilidade de erro de Tipo I da regra de decisão. Isso ajudou a transformar níveis de significância familiares em limiares operacionais para procedimentos repetidos (Neyman & Pearson, 1933a).
  • A repetição consolidou a convenção. Tabelas, manuais, ensino e prática aplicada difundiram os mesmos poucos níveis por várias disciplinas. Kennedy-Shaffer (2019) mostra como esta história de refinamento, difusão e combinação de tradições contribuiu para que \(p<.05\) acabasse tratado como padrão geral, muitas vezes sem a justificação histórica que lhe deu origem.

Assim, \(.05\) e \(.01\) tornaram-se comuns porque prolongavam convenções anteriores, foram divulgados por Fisher e eram fáceis de consultar nas tabelas. A teoria de Neyman–Pearson deu-lhes outro papel nas regras de decisão, e a repetição no ensino e na prática consolidou-os. Esta história explica a sua popularidade, mas não basta para justificar a escolha num estudo novo.

O Que as Tabelas Faziam na Prática

Uma tabela de valores críticos podia localizar um resultado num intervalo sem obrigar a calcular a probabilidade exacta. No capítulo de \(\chi^2\), por exemplo, Fisher explica que, para uso prático, a primeira necessidade era perceber se o resultado merecia suspeita e destaca vários pontos de referência, incluindo \(.05\) (Fisher, 1925, cap. IV). Isso é compatível com tratar valores \(P\) menores como discrepâncias mais fortes: a tabela podia dizer, por exemplo, que \(.02<P<.05\), mesmo sem produzir imediatamente um valor exacto.

NotaAntes de Fisher: Um Teste 50/50 em 1710

Um antecedente importante dos testes de significância aparece em Arbuthnot (1710). Arbuthnot analisou registos anuais de nascimentos de Londres. Em cada um dos 82 anos considerados nasceram mais rapazes do que raparigas. No modelo que adoptou, «rapazes em maioria neste ano» e «raparigas em maioria neste ano» eram tratados como resultados 50/50. Obter a mesma direcção em 82 anos seguidos teria então probabilidade \((1/2)^{82}\).

Isto não é exactamente um teste binomial moderno aplicado a todos os nascimentos individuais. O interesse histórico está na estrutura: especificar um processo aleatório de referência e perguntar quão extremo é o padrão observado. Kennedy-Shaffer (2019) inclui este episódio na genealogia dos testes de significância.

É a mesma estrutura que usamos, com um exemplo deliberadamente neutro, em Fundamentos da Inferência.

NotaAntes de Fisher: Student Dava Outra Leitura à Probabilidade

Em 1908, William Sealy Gosset, que publicava como Student, derivou e tabulou a distribuição que deu origem ao teste t. No exemplo sobre horas de sono, Student (1908) obteve uma probabilidade acumulada de cerca de \(.9985\) e converteu-a em odds de aproximadamente 666 para 1 de que um tratamento fosse melhor do que o outro.

Isto é historicamente importante porque a interpretação é muito próxima do que hoje chamaríamos probabilidade inversa ou bayesiana. Zabell (2008) descreve explicitamente a perspectiva inferencial inicial de Student como bayesiana; Senn e Richardson (1994) destacam a mesma interpretação do exemplo. A posição do próprio Student também viria a evoluir.

Isto não quer dizer que o valor-p moderno seja uma probabilidade posterior. Mostra antes que probabilidades de cauda e distribuições amostrais já eram calculadas antes de Fisher e podiam receber uma interpretação que invertia a direcção da inferência. Na sua 36.ª Fisher Memorial Lecture, Stephen Senn reconstrói precisamente esta mudança: Fisher não inventou as probabilidades de cauda; insistiu que a interpretação inversa era insegura e deu-lhes uma leitura directa sob um modelo de referência.

Para a mecânica do valor-p — incluindo um exemplo binomial exacto, a área sob uma distribuição t e o papel histórico das tabelas — vejam Fundamentos da Inferência.

A Guerra Não Foi Só Intelectual

Fisher e Neyman tinham desacordos metodológicos reais. Mas a história também é uma história de pessoas. Lehmann (2011) descreve uma relação que se tornou profundamente hostil. A própria história institucional da UCL regista que a animosidade entre Fisher e Neyman criava fricção entre departamentos instalados no mesmo edifício.

A ruptura agravou-se em torno da controvérsia de 1935 sobre delineamentos experimentais. Sabbaghi e Rubin (2014) mostram que o episódio envolvia questões técnicas reais, erros e mal-entendidos. Mayo usa esta história para argumentar que parte da imagem de duas filosofias absolutamente incompatíveis foi amplificada pelo conflito pessoal e pela retórica da disputa (Mayo, 2018, Tour III).

O conflito pessoal agravou a disputa, mas não substitui a análise das diferenças técnicas. Precisamos de distinguir essas diferenças da retórica com que foram apresentadas.

O Desacordo de 1955–1956

Fisher (1955) critica «repeated sampling», erros de segundo tipo e «inductive behaviour». E. S. Pearson (1955) responde a Fisher. Neyman (1956) defende a necessidade de considerar alternativas e os dois tipos de erro.

Ao ler esta sequência, podemos acompanhar o desacordo nas palavras dos próprios autores. Discutiam problemas comuns, mas com objectivos e vocabulários parcialmente diferentes.

NHST Como Quimera?

Uma crítica influente diz que a prática moderna de NHST junta o valor-p evidencial de Fisher ao \(\alpha\) e à regra de decisão de Neyman–Pearson apesar de estes conceitos nascerem em programas diferentes (Hubbard & Bayarri, 2003). Perezgonzalez (2014) apresenta uma reconstrução semelhante.

A crítica é útil quando impede confusões: valor-p observado e \(\alpha\) não são a mesma coisa. Mas dizer apenas «é uma quimera incoerente» também pode ocultar demasiado. Berger (2003) mostra zonas de aproximação entre escolas. Já vimos uma tentativa de reorganizar elementos das duas tradições: a abordagem de error statistics de Deborah Mayo.

Ao combinar estas ferramentas, saibam que conceito estão a usar, em que momento e para responder a que pergunta.

Fisher e Neyman–Pearson discordavam sobre bastante coisa. Parte dessas diferenças pode ser reconciliada. O verdadeiro milagre aconteceu nos manuais: desapareceram as nuances e sobrou \(p<.05\).

3 Probabilidade: Intuições e Interpretações

Vocabulário Mínimo

Esta consulta é opcional. Podemos voltar aqui quando um termo fizer falta, ou continuar pela intuição probabilística e pelas interpretações de probabilidade.

  • População: conjunto mais amplo sobre o qual queremos aprender.
  • Amostra: casos efectivamente observados.
  • Parâmetro: quantidade que descreve a população ou um modelo.
  • Estimativa: valor calculado a partir da amostra para aprender sobre um parâmetro.
  • Erro-padrão: medida da variabilidade esperada de uma estimativa entre amostras repetidas sob um modelo.
  • Hipótese nula (\(H_0\)): modelo de referência usado num teste.
  • Hipótese alternativa (\(H_1\)): hipótese ou família de alternativas que contrasta com \(H_0\); o seu papel formal é especialmente importante em Neyman–Pearson.
  • Valor-p: probabilidade, calculada sob \(H_0\) e o procedimento definido, de obter uma estatística pelo menos tão extrema como a observada.
  • \(\alpha\): taxa de erro de Tipo I especificada para uma regra de decisão.
  • \(\beta\): probabilidade de não rejeitar \(H_0\) quando uma alternativa específica é verdadeira.
  • Poder (\(1-\beta\)): probabilidade de rejeitar \(H_0\) quando essa alternativa é verdadeira.
  • Sensibilidade: capacidade do procedimento para revelar discrepâncias de determinada magnitude.
  • Prior: distribuição usada para representar informação, compromisso ou incerteza antes dos dados numa análise bayesiana.
  • Verosimilhança (likelihood): função que compara quão bem diferentes valores de parâmetros tornam os dados observados compatíveis com o modelo.
  • Posterior: distribuição resultante da combinação do prior com o modelo para os dados.
  • Factor de Bayes (Bayes factor): razão entre probabilidades marginais dos dados sob dois modelos.

Provavelmente Isto É Complicado

NotaUm Exemplo Para Levar Connosco

Imaginem 1000 pessoas. Dez têm uma doença. Um teste identifica 9 dessas 10, mas também dá positivo em 50 pessoas sem a doença. Entre as 59 pessoas com teste positivo, apenas 9 têm a doença.

A pergunta «qual é a probabilidade de um teste positivo se a pessoa estiver doente?» não é a mesma que «qual é a probabilidade de doença se o teste for positivo?». Qual é o grupo em que estamos a condicionar?

No primeiro sentido, contamos 9 entre 10 pessoas doentes; no segundo, 9 entre 59 pessoas com teste positivo. A direcção da pergunta muda o grupo de referência. É esta distinção que precisamos de guardar quando interpretamos um valor-p: uma probabilidade calculada sob uma hipótese não se transforma, por inversão, numa probabilidade dessa hipótese depois dos dados.

As pessoas mostram padrões previsíveis de erro em alguns problemas de probabilidade (Tversky & Kahneman, 1974), mas estes efeitos dependem muito da tarefa e da forma como a informação é apresentada (Gigerenzer & Hoffrage, 1995; McDowell & Jacobs, 2017; Szollosi & Newell, 2020).

O exemplo do teste médico mostra como a mesma informação pode responder a duas perguntas muito diferentes. A atenção à condicional será útil nos casos seguintes.

Intuições Enganadoras

  • Trocar a condicional. As pessoas confundem por vezes \(P(A\mid B)\) com \(P(B\mid A)\); a prosecutor’s fallacy é um exemplo aplicado deste erro (Thompson & Schumann, 1987). Mais à frente veremos a mesma confusão quando um valor-p é lido como \(P(H_0\mid D)\).

  • Subvalorizar taxas de base. Este padrão aparece repetidamente (Tversky & Kahneman, 1974), mas o formato importa: frequências naturais melhoram substancialmente o raciocínio bayesiano (Gigerenzer & Hoffrage, 1995; McDowell & Jacobs, 2017), e há bastante heterogeneidade entre pessoas e problemas (Stengård et al., 2022).

  • Julgar uma conjunção mais provável do que uma das suas partes. Isto viola \(P(A\cap B)\leq P(A)\) e foi observado no conhecido problema de Linda (Tversky & Kahneman, 1983), embora a magnitude e a generalidade do efeito dependam da formulação e da tarefa (Mellers et al., 2001; Chandrashekar et al., 2021).

  • Esperar demasiado de amostras pequenas. As pessoas podem esperar que amostras pequenas reproduzam demasiado fielmente a população (Tversky & Kahneman, 1971), mas esta tendência não é universal (Bar-Hillel, 1979).

  • Esperar que o acaso se «compense». Depois de uma sequência, muitas pessoas tendem a prever o resultado oposto (Farmer et al., 2017), mas isso não implica necessariamente que atribuam probabilidades erradas ao próximo resultado (Xiang et al., 2025).

  • Tratar duas possibilidades como 50/50. «Ou acontece ou não acontece» não implica probabilidades iguais. Esta dificuldade aparece em estudos de concepções de probabilidade (Morsanyi et al., 2009).

  • Confundir independência com exclusão mútua. É uma dificuldade conceptual frequente entre estudantes (D’Amelio, 2009).

  • Confundir facilidade de recordação com frequência. A disponibilidade de exemplos pode influenciar julgamentos (Tversky & Kahneman, 1973), mas a dimensão do efeito depende do paradigma e de vários moderadores (Weingarten & Hutchinson, 2018).

  • Estranhar a lei dos grandes números. As proporções podem convergir mesmo quando a diferença absoluta entre resultados cresce (Falk, 2015). Aqui trata-se sobretudo de uma consequência matemática contra-intuitiva, não de um «viés» psicológico.

O importante não é decorar nomes de vieses. É perguntar qual é exactamente a probabilidade em causa, em que informação estamos a condicionar e até que ponto a formulação do problema altera o raciocínio.

Interpretações de Probabilidade

Há ainda uma questão mais profunda: mesmo depois de concordarmos com as regras matemáticas do cálculo de probabilidades, podemos discordar sobre o que uma probabilidade significa.

A axiomatização moderna, associada a Kolmogorov, diz-nos como uma medida de probabilidade se deve comportar matematicamente. Isso não resolve, por si só, a questão filosófica «o que é a probabilidade?». Entre as interpretações mais importantes encontramos:

  • a clássica, associada a casos favoráveis sobre casos possíveis quando as possibilidades são tratadas como equiprováveis;
  • interpretações lógicas ou evidenciais, que procuram representar relações de suporte entre evidência e proposições;
  • interpretações frequentistas, que ligam probabilidade a frequências em repetições relevantes;
  • interpretações de propensão, que tratam a probabilidade como uma tendência ou disposição física de um processo;
  • interpretações subjectivas ou personalistas, centrais em parte da tradição bayesiana, que representam graus de crença ou confiança coerentes.

As fronteiras não são perfeitas, e «Bayesianismo» também não é sinónimo de uma única interpretação subjectivista. A Wikipedia tem um mapa introdutório útil destas interpretações, e a Stanford Encyclopedia of Philosophy desenvolve as diferenças com muito mais profundidade.

Se o navegador impedir a incorporação, abra directamente Probability interpretations — Wikipedia.

Para o nosso percurso não precisamos de resolver a filosofia da probabilidade antes de continuar. Precisamos apenas de reconhecer que a mesma notação \(P(\cdot)\) pode receber interpretações filosóficas diferentes.

A apresentação destas tradições não pretende ser uma cronologia: Bayes e Laplace antecedem Fisher, Neyman e Pearson. Interessa-nos aqui perceber o que pode significar uma probabilidade e por que há mais de uma maneira de aprender com dados.

Bayesianismo, Priors e Factores de Bayes

Depois da moeda e das diferentes interpretações de probabilidade, podemos perguntar algo novo: podemos calcular a probabilidade de uma hipótese depois de observar os dados? O Bayesianismo permite formular essa pergunta, combinando uma distribuição anterior com os dados. Não é apenas outra maneira de calcular significância.

Numa análise bayesiana, combinamos um modelo para os dados com um prior para obter uma distribuição posterior:

\[ P(H \mid E)=\frac{P(E\mid H)P(H)}{P(E)}. \]

O teorema é matemática. O debate filosófico começa quando interpretamos \(P(H)\) e \(P(H\mid E)\) como probabilidades de uma hipótese ou de um valor de um parâmetro.

Porque Não a Usamos

A nossa objecção não é ao teorema de Bayes. É à passagem filosófica que permite interpretar uma distribuição posterior como probabilidade de hipóteses ou valores de parâmetros e, sobretudo, à ideia de que essa probabilidade responde por si só à pergunta evidencial que nos interessa.

Na perspectiva de error statistics de Mayo, evidência forte exige error probing: uma afirmação ganha suporte quando passa um teste que teria boa capacidade para revelar maneiras relevantes de ela estar errada. Uma probabilidade posterior elevada, ou um factor de Bayes favorável, não garante por si só essa propriedade; depende do modelo e dos priors considerados e responde a uma pergunta inferencial diferente (Mayo, 2018).

Neste site, a linguagem de erros, sensibilidade, poder e severidade também liga mais directamente a inferência ao delineamento experimental. Por isso vamos compreender a lógica bayesiana e algumas das suas vantagens e dificuldades, mas as análises que aprendemos a executar serão frequentistas.

Aprender Com Dados Não É Só Bayes

A linguagem bayesiana de «actualizar crenças» é intuitiva: começamos com um prior, observamos dados e obtemos uma distribuição posterior. Mas não devemos concluir daí que só Bayes «aprende com os dados». A estatística frequentista também procura aprender com dados; simplesmente fundamenta as inferências de outra forma, através do comportamento de procedimentos, incompatibilidade com modelos, sensibilidade a discrepâncias e capacidade de detectar erros.

A divergência é filosófica: é legítimo representar directamente a incerteza sobre uma hipótese ou parâmetro através de uma probabilidade? Bayesianos dizem que sim, sob diferentes interpretações. Frequentistas podem recusar essa passagem sem negar que os dados permitam aprender.

Nem Todos os Priors São Iguais

Uma motivação subjectivista é simples: investigadores já têm expectativas e conhecimento prévio, portanto é preferível torná-los explícitos e actualizá-los coerentemente com os dados. Mas Bayesianismo não é sinónimo de subjectivismo. Há tradições de Bayesianismo objectivo ou de referência que procuram construir priors através de regras formais (Bernardo, 1979; Berger, 2006).

Podemos distinguir, de forma aproximada:

  • priors informativos, que codificam conhecimento substantivo;
  • priors fracamente informativos, que regularizam e excluem valores implausivelmente extremos sem dominar a análise (Gelman et al., 2008);
  • priors ditos objectivos, de referência ou construídos por regras formais (Bernardo, 1979; Berger, 2006);
  • priors muito vagos ou «não informativos», uma expressão que deve ser usada com cautela: ser difuso numa parametrização não significa ser neutro em todas as parametrizações ou para todas as perguntas.

Por isso, «o bayesiano escolhe um prior subjectivo» é uma caricatura tão pobre como «o frequentista só pensa em repetições infinitas». O debate não é simplesmente «dados versus opinião»; há desacordo também dentro do Bayesianismo sobre subjectividade, objectividade, regularização e regras de referência.

O Prior Desaparece?

Em muitos modelos regulares e bem identificados, à medida que os dados se tornam mais informativos, a influência de diferentes priors razoáveis pode diminuir e as respectivas distribuições posteriores podem aproximar-se. A literatura sobre consistência e resultados assintóticos bayesianos formaliza situações em que esta intuição funciona; Gelman e Shalizi (2013) discutem essa tradição e também os limites de tratar a convergência assintótica como uma justificação suficiente da prática.

Com dados fracos, parâmetros pouco identificados, modelos complexos ou priors que excluem regiões relevantes, essa influência pode permanecer importante. Precisamos, por isso, de verificar se as conclusões resistem à escolha de outros priors. Os desacordos iniciais podem diminuir à medida que obtemos mais informação, nas condições descritas acima. Fora delas, a convergência não está garantida.

Factores de Bayes ≠ Valores-p

Um factor de Bayes (Bayes factor) compara a capacidade preditiva marginal de dois modelos, integrando sobre os seus parâmetros e priors. Um valor-p pergunta quão extremo é o resultado relativamente a uma distribuição de referência sob \(H_0\). Não respondem à mesma pergunta inferencial.

Isso não significa que os dois números sejam sempre matematicamente independentes. García-Pérez (2017) mostra, por simulação, que em alguns testes comuns — incluindo versões do teste t e de testes de correlação — fixados o tamanho da amostra e a especificação do prior, determinados factores de Bayes por defeito têm uma relação um-para-um com o valor-p. Nesse contexto, ambos são funções da mesma estatística de teste e das mesmas quantidades já fixadas. Esta é provavelmente a origem da intuição de que seria possível «converter» directamente um no outro.

Mas a curva muda quando mudam o tamanho da amostra, o prior, o modelo ou o factor de Bayes escolhido. Portanto, não existe uma identidade geral como \(BF=\log(p)\), nem uma função universal de \(p\) sozinho que produza qualquer factor de Bayes. Há relações condicionais a uma análise especificada.

Outra linha de trabalho procura precisamente calibrar valores-p em termos de evidência bayesiana sem os declarar equivalentes. Sellke et al. (2001) obtêm, sob condições específicas, limites que relacionam um valor-p com o factor de Bayes mínimo a favor de \(H_0\); para \(p<1/e\), uma forma conhecida é

\[ BF_{01} \geq -e\,p\log(p). \]

Isto é uma calibração sob pressupostos, não uma tradução universal de um valor-p em factor de Bayes.

Há ainda situações em que valor-p e factor de Bayes podem apontar em direcções aparentemente muito diferentes à medida que a amostra cresce, fenómeno associado ao paradoxo de Jeffreys–Lindley. O ponto não é que um dos números esteja «a calcular mal». Eles incorporam perguntas e estruturas inferenciais diferentes (Berger & Sellke, 1987).

O Que Mayo Questiona no Bayesianismo

A posição de Mayo torna-se mais clara quando a comparamos com o Bayesianismo. Um bayesiano pode perguntar quão provável é um parâmetro ou modelo depois de combinar prior e dados. Mayo não considera que essa probabilidade posterior seja necessária para avaliar quão bem uma afirmação foi testada. A pergunta que privilegia é outra: o procedimento teria sido capaz de revelar um erro relevante, caso esse erro existisse?

Mayo (2013), comentando Gelman e Shalizi (2013), aceita muito do valor prático de verificação de modelos mas questiona se a filosofia bayesiana fornece as propriedades de detecção de erro que considera necessárias para justificar afirmações científicas. É uma boa leitura precisamente porque o desacordo não é «Bayes funciona / não funciona». É sobre o que conta como garantia probatória.

A aproximação a Fisher e Neyman–Pearson não elimina, portanto, o desacordo de Mayo com interpretações bayesianas da inferência. A questão continua a ser como justificar o apoio que atribuímos a uma afirmação.

4 Planeamento e Interpretação

Planeamento: Equivalência, Sensibilidade e \(\alpha\)

A discussão anterior tem consequências práticas. Se queremos saber quão bem uma afirmação foi testada, não basta olhar para o resultado depois de o obter. Precisamos de pensar antecipadamente que diferenças seriam importantes e que erros o estudo teria capacidade para revelar.

Não Significativo ≠ Ausência

Se um teste não rejeita \(H_0\), isso pode acontecer porque o efeito é pequeno, porque os dados são imprecisos ou porque o estudo tem pouca sensibilidade. Para apoiar a afirmação de que não existe um efeito grande o suficiente para ser cientificamente relevante, precisamos de uma pergunta mais específica.

Os testes de equivalência definem limites para o menor efeito que valeria a pena distinguir de zero (Lakens, 2017; Lakens et al., 2018). Isto não «prova o nulo» em sentido absoluto: permite rejeitar uma classe de efeitos considerados grandes o suficiente para interessar. O exemplo com intervalos mostra a diferença entre não detectar e excluir magnitudes relevantes.

Sensibilidade e Tamanho da Amostra

Se o tamanho da amostra já está fixado, uma análise de sensibilidade de poder pergunta que magnitude de efeito teria uma probabilidade especificada de ser detectada. Lakens (2022) descreve ainda várias formas de justificar tamanho amostral para além de uma única receita de poder.

Justificar \(\alpha\)

O limiar \(\alpha=.05\) é uma convenção histórica, não uma constante da natureza. A história de \(.05\) e \(.01\) mostra ainda por que não devemos transformar retrospectivamente o \(P\) fisheriano no \(\alpha\) de Neyman–Pearson: as convenções influenciaram-se, mas os conceitos não são idênticos. Lakens et al. (2018) defendem que escolhas como \(\alpha\) devem ser transparentes e justificadas. Maier e Lakens (2022) apresentam abordagens práticas.

AvisoEvitar um Novo Ritual

«Justificar \(\alpha\)» não deve transformar-se noutra caixa para assinalar. A pergunta é que erros importam, que custos têm, que efeito queremos detectar e quão informativo será o estudo.

Intervalos e «Novas Estatísticas»

Intervalos de confiança são extremamente úteis. Mostram a escala de valores que o procedimento não exclui ao nível correspondente e ajudam a comunicar magnitude e precisão. Para recordar de onde vem a incerteza de uma estimativa, podemos voltar às distribuições amostrais e ao erro-padrão. O problema começa quando se apresenta «usar intervalos» como se fosse, por si só, uma filosofia inferencial completamente diferente de «usar testes».

Testes e Intervalos

Para muitos testes frequentistas usuais, o intervalo de confiança correspondente pode ser construído invertendo o teste: os valores do parâmetro que não seriam rejeitados ao nível escolhido formam o intervalo. Perezgonzalez (2015) enfatiza precisamente que testes e intervalos podem ser dois lados da mesma pergunta.

Os intervalos permitem muitas vezes comunicar magnitude e precisão muito melhor do que uma decisão binária. Essa vantagem mantém-se mesmo quando o IC e o teste respondem à mesma pergunta. Ao trocar um valor-p por um IC, continuamos a trabalhar sob pressupostos frequentistas, e não com uma distribuição posterior.

NotaExemplo Hipotético: Que Diferenças Excluímos?

Imaginemos dois estudos sobre recordação de palavras. Em ambos, a diferença média estimada entre condições é 0.2 palavras, mas a precisão é diferente. Para simplificar, usamos intervalos t com 29 graus de liberdade:

Estudo Erro-Padrão da Diferença IC de 95% para a Diferença
A 0.8 palavras [-1.44, 1.84] palavras
B 0.2 palavras [-0.21, 0.61] palavras

Suponhamos que, antes dos dados, justificámos como relevantes diferenças de pelo menos uma palavra, em qualquer direcção. Este limite é inventado para o exemplo; não é uma recomendação para estudos de memória.

Os dois ICs incluem zero: nenhum dos testes bilaterais correspondentes rejeita diferença zero a \(\alpha=.05\). Mas o estudo A também não exclui diferenças relevantes. No estudo B, todo o IC fica entre -1 e 1. Podemos dizer: «A estimativa é 0.2 palavras, IC de 95% [-0.21, 0.61]; nas condições do modelo, o intervalo exclui diferenças de uma palavra ou mais em qualquer direcção.» Esta conclusão vale para a medida, a comparação e o alcance do estudo. Permite excluir aquelas magnitudes, sem provar que o efeito seja exactamente zero.

Para o teste de equivalência TOST, com cada teste unilateral a \(\alpha=.05\), o intervalo correspondente é de 90%, não de 95% (Lakens, 2017). Ter o IC de 95% inteiramente dentro dos limites, como em B, é um critério mais conservador.

A Proposta das «Novas Estatísticas»

Cumming (2014) defende uma mudança de ênfase para tamanhos de efeito, intervalos de confiança, meta-análise, replicação e acumulação quantitativa. Há muito de valioso aqui: comunicar magnitudes, mostrar incerteza e acumular evidência é preferível a publicar apenas «significativo / não significativo».

O próprio Cumming reconhece que, nos casos correspondentes, ICs e valores-p assentam na mesma teoria estatística e é possível passar de um para o outro. O argumento a favor dos intervalos é sobretudo que tornam magnitude e precisão mais visíveis ao leitor, não que pertençam a uma filosofia probabilística totalmente diferente (Cumming, 2014). Perezgonzalez (2015) aprofunda este ponto, distinguindo a história fisheriana dos valores-p da origem Neyman–Pearson dos intervalos e mostrando a dualidade matemática entre testes e intervalos correspondentes.

A simples substituição de NHST por intervalos deixa, porém, vários problemas inferenciais por resolver. García-Pérez (2017) argumenta que muitas críticas ao NHST atacam interpretações que o procedimento nunca justificou e que alternativas, incluindo ICs, tamanhos de efeito e métodos bayesianos, também podem ser mal interpretadas ou usadas mecanicamente.

Mayo levantou a mesma questão em discussão directa com Cumming: como os intervalos correspondentes são duais aos testes, que erro inferencial é realmente corrigido pela simples troca de formato? A discussão está reunida em Do CIs Avoid Fallacies of Tests? Reforming the Reformers e na resposta de Cumming.

Os Intervalos Também São Mal Interpretados

Hoekstra et al. (2014) relataram interpretações incorrectas persistentes de ICs em estudantes e investigadores. A leitura desse questionário foi depois contestada por Miller e Ulrich (2016), sobretudo quanto ao que as respostas permitem concluir sobre compreensão dos ICs. Morey et al. (2016) desenvolvem a questão conceptual: várias afirmações intuitivas sobre um IC observado não se seguem da teoria frequentista que o gerou.

Um IC frequentista de 95% não significa que, depois de calculado, há 95% de probabilidade de o parâmetro fixo estar dentro daquele intervalo específico. A garantia refere-se ao procedimento de construção de intervalos sob o modelo.

NotaO Problema Não É Mostrar Incerteza

Intervalos de confiança podem comunicar incerteza muito melhor do que um asterisco de significância. O ponto é outro: mudar a visualização ou o resumo não substitui compreender a inferência. Um IC interpretado como distribuição posterior é tão enganador como um valor-p interpretado como \(P(H_0\mid D)\).

5 Prática Científica

Estatística Ritual

Stark e Saltelli (2018) usam a expressão cargo-cult statistics para descrever a aplicação mecânica de procedimentos: seguimos a forma reconhecível da análise sem compreender suficientemente o que cada passo faz, que pergunta responde ou que pressupostos exige.

Nesta página preferimos chamar-lhe estatística ritual. A expressão descreve a aplicação mecânica dos procedimentos sem recorrer à metáfora antropológica.

Feynman (1974) popularizou cargo cult science a partir de relatos então correntes sobre movimentos da Melanésia. A literatura antropológica posterior questionou tanto a coerência da categoria como a genealogia colonial de algumas das suas representações (McDowell, 1988; Lindstrom, 1993; Hermann, 2004).

Isso não implica que exista uma posição antropológica única sobre abandonar a expressão: Otto (2009) defende que ainda pode ter valor comparativo quando usada com cuidado. Para o nosso objectivo, porém, não é necessário repetir uma metáfora com esta bagagem histórica para criticar práticas científicas ritualizadas. Gelman e Higgs (2025) fazem precisamente esse argumento e propõem ritual science como alternativa.

Um exemplo simples é transformar «\(p<.05\)» numa rotina automática: correr o teste, procurar o asterisco e escrever «há efeito» ou «não há efeito» sem pensar na magnitude, precisão, sensibilidade, multiplicidade ou no delineamento.

Mas o problema não pertence ao NHST. Também podemos escolher um prior por defeito, copiar um factor de Bayes, desenhar um intervalo de confiança ou reportar um tamanho de efeito sem compreender o que cada número permite afirmar. Substituir uma ferramenta por outra não elimina o ritual.

García-Pérez (2017) é útil precisamente por mostrar que várias falhas atribuídas ao NHST são falhas de interpretação ou de delineamento que podem reaparecer com outras ferramentas.

A salvaguarda é reconstruir a cadeia de raciocínio: o que queremos saber, que dados podem responder, que erro seria relevante, que modelo estamos a usar, que alternativas o procedimento consegue distinguir e que conclusão o resultado permite?

6 Síntese

Um Mapa de Perguntas

  • Descrição: o que aconteceu nesta amostra?
  • Estimação: que valores para o parâmetro são compatíveis com estes dados e este modelo?
  • Fisher: quão incompatíveis são os dados com \(H_0\)?
  • Neyman–Pearson: como se comporta esta regra sob \(H_0\) e alternativas relevantes?
  • Poder/sensibilidade: que discrepâncias conseguiríamos detectar?
  • Bayes: como muda a incerteza depois de combinar prior e dados?
  • Mayo: se esta afirmação estivesse errada desta maneira, o teste teria boa oportunidade de mostrar isso?
  • Equivalência: podemos excluir efeitos suficientemente grandes para serem relevantes?
  • Intervalos: que valores não são excluídos pelo procedimento no nível escolhido e com que precisão estamos a estimar?
  • Decisão: que acção escolher, dados os custos dos erros?

O Que Reter e Onde Continuar

Para perceber o que aprendemos com um resultado, precisamos de conseguir dizer:

  1. que pergunta o procedimento responde;
  2. que pressupostos foram necessários;
  3. que erros ou discrepâncias podia revelar;
  4. quanta incerteza permanece;
  5. que conclusões não são justificadas pelos dados.

Para trabalhar com estas ideias em modelos concretos, sigam A Abordagem de Comparação de Modelos. Para pressupostos, robustez e triangulação, vejam Diagnóstico e Pressupostos. Para a base filosófica sobre testes e erro, regressem a Filosofia da Ciência.

7 Exercícios

Os exemplos seguintes são inventados. Não precisam de saber R, nem de inventar um estudo na vossa área. Comecem pelas situações concretas. Para cada resposta, expliquem o vosso raciocínio em poucas frases. Por vezes, a melhor resposta será dizer que informação falta.

Quatro Situações Para Pensar

  1. A Máquina dos Autocolantes. Uma máquina deveria produzir autocolantes vermelhos e azuis com a mesma probabilidade. Suspeitamos, antes do teste, de que favorece o vermelho. Em dez autocolantes, saem sete vermelhos. Se a máquina funcionasse como previsto, a probabilidade de obter sete ou mais vermelhos seria aproximadamente 17.2%. Para nove ou mais, seria 1.1%.

    • Em qual dos dois resultados desconfiariam mais da máquina? Porquê?
    • Se saíssem sete vermelhos, seria razoável afirmar que a máquina está equilibrada? O que ainda não sabemos?
    • Se a suspeita fosse «a máquina favorece uma das duas cores», que outros resultados teríamos de contar além dos excessos de vermelho?
  2. Um Alarme de Incêndio. Dois alarmes foram comparados em simulações. Em 100 situações sem incêndio, o alarme A disparou por engano uma vez e o B seis vezes. Em 100 situações com incêndio, o A detectou 60 e o B detectou 95.

    Alarmes falsos em 100 situações sem incêndio Incêndios detectados em 100 situações com incêndio
    Alarme A 1 60
    Alarme B 6 95
    • Qual dos alarmes deu menos falsos alarmes? Qual deixou escapar menos incêndios?
    • Escolheriam necessariamente o mesmo alarme para todos os edifícios? Que custos e circunstâncias poderiam influenciar a escolha?
    • Se pudessem definir a regra de disparo antes de uma nova simulação, que compromisso tentariam controlar? O que este caso vos ajuda a perceber sobre os erros de uma regra de decisão?
  3. Dois Resultados Sem Uma Diferença Clara. Dois estudos imaginários procuram saber se uma mudança de método altera a pontuação média. Ambos encontram uma diferença estimada de 0.2 pontos e nenhum rejeita a hipótese de diferença zero. Os intervalos de confiança de 95% calculados sob os respectivos modelos são:

    Estudo Intervalo de confiança
    A -0.3 a 0.7 pontos
    B -7.8 a 8.2 pontos
    • O que têm em comum os dois resultados? Qual é mais preciso?
    • Se uma diferença de 2 pontos já fosse importante, qual dos estudos permite afastar melhor diferenças dessa magnitude?
    • Seria correcto escrever «provámos que não há qualquer efeito»? O que diriam em alternativa?
  4. Um Teste Médico. Em 1000 pessoas, dez têm uma doença. Um teste identifica nove dessas dez, mas também dá positivo em 50 pessoas que não têm a doença.

    • Quantas pessoas têm teste positivo? Entre essas pessoas, quantas têm realmente a doença?
    • Saber que nove em cada dez pessoas doentes testam positivo responde à pergunta «se o meu teste for positivo, qual é a probabilidade de eu ter a doença»? Porquê?
    • Se a doença fosse muito mais frequente na população, esperariam que a proporção de pessoas doentes entre os resultados positivos permanecesse igual? Expliquem a intuição, sem fazer novas contas.

Dos Resultados às Conclusões

  1. Um Teste Que Podia Falhar. Uma investigação afirma que um programa melhorou a atenção. Os investigadores mediram apenas a satisfação dos participantes com o programa; não mediram atenção antes e depois. A maioria gostou do programa.

    • A que pergunta respondem estes dados?
    • Que observação seria capaz de pôr a afirmação sobre atenção realmente em dificuldades?
    • Como relacionariam esta situação com a pergunta de Mayo sobre testes severos?
  2. A História de Duas Perguntas. Voltem ao exemplo da máquina. Um investigador quer saber quão invulgares são os dados sob o modelo de duas cores equiprováveis. Outro quer escolher, antes de observar novos autocolantes, uma regra que distinga a máquina equilibrada de máquinas com desvios relevantes.

    • Que informação procura cada investigador?
    • Porque é que os dois podem usar as mesmas probabilidades sem estar a fazer exactamente a mesma pergunta?
    • O que acrescenta a pergunta sobre quais os desvios que o teste teria boas condições para detectar?

Para Quem Quiser Explorar as Fontes

Estas perguntas exigem partes do capítulo que podem ser deixadas para uma leitura posterior. Não são pré-requisitos para os exercícios anteriores.

  • Fisher, Neyman–Pearson e Mayo. Leiam as secções sobre as tradições, a controvérsia histórica e Mayo. Escolham uma diferença real entre as posições e uma aproximação possível. Identifiquem a fonte que sustenta cada interpretação, sem reduzir os autores a dois slogans opostos.
  • Poder e equivalência. Porque é que «80% de poder» exige especificar uma magnitude? Como se relaciona essa questão com a diferença entre não detectar um efeito e excluir efeitos cientificamente relevantes? Consultem poder e equivalência.
  • Intervalos e reformas. Depois de lerem Intervalos e «Novas Estatísticas», expliquem uma vantagem de apresentar intervalos de confiança e um problema que a simples substituição do valor-p não resolve.
  • Outra interpretação da probabilidade. Como mudaria a pergunta se quiséssemos calcular probabilidades para modelos depois de observar os dados? Que papel poderia ter um prior? Consultem o Bayesianismo.

8 Referências

Aldrich, J. (2000). Fisher’s “Inverse Probability” of 1930. International Statistical Review, 68(2), 155–172. https://doi.org/10.1111/j.1751-5823.2000.tb00319.x

Arbuthnot, J. (1710). An argument for Divine Providence, taken from the constant regularity observ’d in the births of both sexes. Philosophical Transactions, 27, 186–190. https://www.york.ac.uk/depts/maths/histstat/arbuthnot.htm

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