Escrita Científica

Autor
Afiliação

João O. Santos

ISPA

0 Escrever Para Pensar, Rever Para Comunicar

Esta página é deliberadamente curta. Não tenta resumir um manual de escrita científica nem inventar regras próprias para o NRB. Serve para distinguir duas tarefas que costumamos misturar: descobrir o que queremos dizer e conseguir que outra pessoa o perceba. Depois encaminha para as convenções de reporte quando elas forem necessárias.

Se já tem a análise pronta e precisa sobretudo de escrever os resultados, use a folha de consulta APA ou as convenções para biologia/ecologia.

Primeiro, Escrever Para Descobrir o Que Quer Dizer

Sarnecka insiste numa ideia simples: escrever não é apenas transcrever um pensamento que já estava pronto. O próprio processo de escrever ajuda a descobrir a estrutura do argumento.

Uma técnica prática é começar por um esboço de frases completas. Cada frase deve dizer, aproximadamente, o que um parágrafo precisa de fazer. Depois escreva o rascunho e volte ao esboço. É normal que o texto obrigue a mudar a estrutura. Às vezes duas ideias eram afinal a mesma. Outras vezes um ponto que parecia pequeno precisa de uma secção própria.

O movimento útil é, portanto, esboço → rascunho → novo esboço → novo rascunho, tantas vezes quantas forem necessárias. Nesta fase, o texto ainda serve sobretudo para pensar.

Depois, Rever Para Um Leitor

Quando já sabe o que quer dizer, o problema muda. O leitor não passou meses ou anos dentro do mesmo projecto e não partilha automaticamente os seus pressupostos. Sarnecka chama a atenção para esta curse of knowledge: é fácil sobrestimar aquilo que outra pessoa já sabe.

Na revisão, tente ler cada parágrafo como alguém que chega ali pela primeira vez. A ideia principal está visível? O leitor tem a informação necessária para perceber a frase seguinte? Consegue perceber por que razão este parágrafo vem depois do anterior?

Uma frase-tema pode ser útil precisamente porque obriga o autor a dizer que trabalho aquele parágrafo está a fazer. Isso não transforma todos os parágrafos numa fórmula. Se não consegue resumir esse trabalho numa frase, o problema pode estar na estrutura e não no vocabulário.

Voz Activa e Passiva: Não Transformar Preferências em Regras

Ao escrever em inglês, não use «evitar a voz passiva» como regra automática. Pullum mostra que muitas críticas à passiva confundem uma construção gramatical com problemas diferentes, como vagueza, excesso de palavras ou omissão de responsabilidade. Uma frase passiva pode nomear explicitamente o agente. Uma frase activa pode ser vaga.

A pergunta útil é outra: o que deve estar em primeiro plano nesta frase, e é importante dizer quem fez a acção?

Por exemplo, quando uma decisão analítica precisa de autoria, uma construção como «we excluded 12 observations because the sensor failed» torna essa decisão explícita. Noutro contexto, «the samples were stored at −80 °C until analysis» pode ser perfeitamente clara se a pessoa que colocou as amostras no congelador for irrelevante para a informação que o leitor precisa.

A voz gramatical não resolve sozinha a responsabilidade. Quando importa saber quem decidiu, mediu, excluiu ou interpretou, diga-o. Quando o agente é irrelevante ou desconhecido, não é preciso inventá-lo apenas para evitar uma passiva.

Para o argumento completo, consulte Geoffrey K. Pullum, Fear and loathing of the English passive (artigo publicado). O artigo é sobre inglês. Não deve ser transformado numa regra sobre a gramática portuguesa.

Quando Chega a Hora de Reportar Resultados

Esta página não duplica regras de notação. Depois de decidir o que a análise permite dizer, escolha a referência apropriada:

  • APA, para a convenção usada sobretudo em psicologia e áreas próximas;
  • Biologia/Ecologia, quando a revista ou disciplina segue essas convenções.

Se a dificuldade ainda é saber o que pode concluir, volte ao delineamento, aos modelos lineares ou aos pressupostos e diagnóstico. Um problema de inferência não se resolve com uma frase mais elegante.