Nesta cadeira, quando dissermos simplesmente «ciência», estaremos normalmente a falar das ciências empíricas, sobretudo das questões relevantes para as ciências cognitivas e comportamentais.
É uma escolha de foco, não uma definição de ciência nem uma posição sobre o estatuto da matemática ou de outras áreas.
Antes da Demarcação
Aristóteles — epistēmē: conhecimento demonstrativo: explicar porquê, derivando conclusões de princípios verdadeiros, primeiros e causais.
Tomás de Aquino — scientia: uma ciência procede de princípios e deles deriva conclusões; esses princípios podem ser conhecidos directamente ou recebidos de uma ciência superior.
São concepções historicamente diferentes daquilo a que hoje chamamos ciência empírica. Durante séculos, muito do que hoje chamamos ciência natural fazia parte da filosofia natural.
Tradições de investigação em diferentes épocas e regiões.
Dignāga e Dharmakīrti — Índia: percepção e inferência como fontes de conhecimento fiável.
Cânones Mohistas — China: conhecimento por testemunho, explicação/inferência ou observação directa.
Ibn al-Haytham — Basra/Cairo: matemática articulada com experiências na óptica.
Émilie du Châtelet — França: hipóteses confrontadas com princípios conhecidos e com a experiência.
Não responderam todos à mesma pergunta nem fizeram «a mesma ciência» com outros nomes. O ponto é mostrar arquitecturas diferentes de conhecimento e investigação.
O mosaico científico é uma noção mais exigente: descreve elementos epistémicos aceites ou empregados por uma comunidade, não apenas as ideias de um autor ou texto. Voltaremos a Barseghyan.
História Como Argumento
Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend recorrem todos a episódios históricos — mas a história também está a fazer trabalho filosófico.
Ao ler um episódio, façam duas perguntas:
O que aconteceu? O que precisa este autor que o episódio mostre?
E uma segunda cautela: os autores também não cabem num slogan. «Popper = falsificação» e «Kuhn = revoluções» são mapas úteis, não retratos completos.
Popper começava as suas aulas de Scientific Method com uma provocação:
“scientific method does not exist” — e brincava ter sido professor desse «assunto inexistente».
Não queria dizer que vale tudo. Negava que existisse uma receita geral para descobrir teorias ou verificar a sua verdade. Continuava a defender problemas, conjecturas, crítica e testes.