Cisnes Negros e Outras Aves Raras
Filosofia da Ciência
Antes de Popper
Duas coisas para fechar da aula anterior.
Definir em conjunto as condições para a utilização de LLMs.
Formar os grupos e organizar as participações ao longo do semestre.
Escrever Antes de Discutir
3 minutos · individual
Escrevam:
um uso de LLMs que ajude a aprender;
um uso que substitua a competência que queremos praticar;
um princípio que permita distinguir os dois.
Comparar e Propor
7 minutos · grupos pequenos
Comparem os princípios.
Escolham dois com que concordam.
Tragam à turma um caso em que ainda há dúvida.
Ponto de partida para a discussão.
Contrato de IA
A partir da discussão, acordamos regras para as aulas e avaliações. No mínimo:
o texto entregue é da vossa autoria;
as fontes são verificadas;
cada pessoa assume a responsabilidade pelo resultado.
Uma Convenção de Linguagem
Nesta cadeira, quando dissermos simplesmente «ciência» , estaremos normalmente a falar das ciências empíricas , sobretudo das questões relevantes para as ciências cognitivas e comportamentais.
É uma escolha de foco , não uma definição de ciência nem uma posição sobre o estatuto da matemática ou de outras áreas.
Antes de Verificar
Conseguimos verificar «todos os cisnes são brancos»?
Um milhão de casos ainda deixa espaço para uma ave inconveniente.
Uma Pergunta de Inferência
Se todos os cisnes observados forem brancos, o que podemos concluir?
Recolher uma resposta antes de avançar para a história: o que podemos concluir sobre os cisnes ainda não observados? Guardar esta previsão para o regresso aos cisnes e à distinção entre indução e dedução.
Antes da Demarcação
Aristóteles · epistēmē
Demonstrar a partir de princípios causais
Tomás de Aquino · scientia
Derivar conclusões de princípios
São já «ciência empírica» no nosso sentido?
Aristóteles — epistēmē : conhecimento demonstrativo: explicar porquê , derivando conclusões de princípios verdadeiros, primeiros e causais.
Tomás de Aquino — scientia : uma ciência procede de princípios e deles deriva conclusões; esses princípios podem ser conhecidos directamente ou recebidos de uma ciência superior.
São concepções historicamente diferentes daquilo a que hoje chamamos ciência empírica. Durante séculos, muito do que hoje chamamos ciência natural fazia parte da filosofia natural .
Desenvolvimento e textos originais · Aristóteles, Analíticos Posteriores I.2 · Tomás de Aquino, Summa Theologiae I, q. 1, a. 2
Mais do Que Uma História
Índia · Dignāga / Dharmakīrti
Percepção e inferência
China · Mohistas
Testemunho, inferência, observação
Basra/Cairo · Ibn al-Haytham
Matemática e experiências ópticas
França · du Châtelet
Hipóteses, princípios, experiência
Respondem todos à mesma pergunta?
Dignāga e Dharmakīrti — Índia: percepção e inferência como fontes de conhecimento fiável.
Cânones Mohistas — China: conhecimento por testemunho, explicação/inferência ou observação directa.
Ibn al-Haytham — Basra/Cairo: matemática articulada com experiências na óptica.
Émilie du Châtelet — França: hipóteses confrontadas com princípios conhecidos e com a experiência.
Não responderam todos à mesma pergunta nem fizeram «a mesma ciência» com outros nomes. O ponto é mostrar arquitecturas diferentes de conhecimento e investigação .
Epistemologia indiana · Dharmakīrti · Cânones Mohistas · Ibn al-Haytham · Émilie du Châtelet
O mosaico científico é uma noção mais exigente: descreve elementos epistémicos aceites ou empregados por uma comunidade, não apenas as ideias de um autor ou texto. Voltaremos a Barseghyan .
História Como Argumento
Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend recorrem todos a episódios históricos — mas a história também sustenta argumentos filosóficos .
Ao ler um episódio, façam duas perguntas:
O que aconteceu?
O que precisa este autor que o episódio mostre?
E uma segunda cautela: os autores também não cabem num slogan . «Popper = falsificação» e «Kuhn = revoluções» são mapas úteis, não retratos completos.
SEP: Historicist Theories of Scientific Rationality
Uma heurística minha para a cadeira: tal como a ficção científica muitas vezes diz tanto sobre o presente em que foi escrita como sobre o futuro imaginado, a história da ciência escolhida por um filósofo pode dizer-nos tanto sobre a sua teoria da ciência como sobre o passado. O ponto é distinguir historiografia de uma reconstrução histórica escolhida para sustentar um argumento filosófico. As ideias dos próprios autores também mudam ao longo do tempo; nesta cadeira usamos simplificações pedagógicas e acrescentamos nuance quando ela é relevante para os problemas em análise.
A História de Popper
Na leitura de Popper dos pré-socráticos :
a ruptura decisiva foi passar de uma tradição dogmática para uma tradição de discussão crítica ;
teorias concorrentes podiam ser criticadas e melhoradas;
a ciência não começou, para ele, por acumular observações neutras, mas por propor explicações ousadas e submetê-las à crítica.
É uma história da ciência que já se parece bastante com a filosofia de Popper.
Popper, Back to the Presocratics , em Conjectures and Refutations · Routledge
Viena Antes de Popper
O Círculo de Viena procurava uma concepção científica do mundo:
empirismo e análise lógica;
unidade das ciências;
crítica da metafísica;
diferentes versões de verificacionismo , ligando significado empírico e possibilidade de verificação.
Não existia uma única posição «do Círculo»: o verificacionismo estrito foi discutido e reformulado dentro do próprio movimento.
SEP: Logical Empiricism · SEP: Science and Pseudo-Science
Popper Contra a Verificação
Popper conviveu com membros do Círculo, mas não pertenceu ao grupo e tornou-se um dos seus críticos.
Uma lei universal não pode ser estabelecida por enumerar casos favoráveis.
O problema não era tornar uma teoria cada vez mais «verificada».
Popper pergunta: que observação seria incompatível com a teoria?
SEP: Karl Popper
Não Há «O Método»?
Popper começava as suas aulas de Scientific Method com uma provocação:
“scientific method does not exist” — e brincava ter sido professor desse «assunto inexistente» .
Não queria dizer que vale tudo . Negava que existisse uma receita geral para descobrir teorias ou verificar a sua verdade. Continuava a defender problemas, conjecturas, crítica e testes .
Popper (1983), Realism and the Aim of Science , pp. 5–6
Cisnes Negros e Outras Aves Raras
Quantos casos favoráveis chegam?
“No matter how many instances of white swans we may have observed, this does not justify the conclusion that all swans are white.”
— Karl Popper, The Logic of Scientific Discovery (1959), Ch. 1, §4
Edição inglesa de 1959 (Hutchinson), pp. 4–5; ed. Routledge 2002, pp. 4–5. Original alemão: Logik der Forschung (1934).
A Pergunta de Popper
O que distingue uma hipótese científica de uma afirmação que se acomoda a qualquer resultado?
Aqui focamo-nos numa das perguntas de Popper sobre as ciências empíricas : a demarcação.
A sua resposta põe o risco de estar errado no centro do teste científico.
Exemplo de discussão e actividade sobre demarcação
Indução e Dedução
Indução: a conclusão vai além das premissas; casos observados apoiam uma generalização.
Dedução: a conclusão é garantida pelas premissas, se estas forem verdadeiras.
O Problema da Verificação
Uma generalização universal não fica verificada por acumular casos favoráveis.
A observação de casos apoia, mas não garante, a generalização.
Um caso incompatível pode contrariá-la — se a medição e as condições forem adequadas.
Um Cisne Negro Basta?
Na lógica: contraria «todos os cisnes são brancos».
Na prática: era cisne? Era negro? Medimos bem?
O Critério de Popper
Falsificabilidade
Uma hipótese científica admite resultados que a refutariam.
SEP
Quando a Previsão Falha
Hipótese e auxiliares conduzem a uma previsão; um resultado incompatível obriga a rever o conjunto.
H = hipótese · A = auxiliares · O = observação
( H ∧ A ) → O (H \land A) \rightarrow O
Ler o «+» da imagem como «e», não como adição. Se a previsão falha, a lógica põe em causa o conjunto; não identifica sozinha a hipótese como culpada.
Introduzir o exemplo hipotético «a música melhora a memória». A previsão depende também da tarefa de recordação, das instruções e das condições de comparação. Se não surgir a melhoria prevista, que parte do conjunto precisamos de investigar? Não deixar que «há auxiliares» se transforme em licença para salvar qualquer hipótese.
Sobreviveu — Por Agora
Corroboração: sobreviveu a testes exigentes.
Continua aberta à refutação.
Corroboração descreve o desempenho em testes realizados. Não é verificação nem uma probabilidade de a teoria ser verdadeira. Pedir que distingam «falsificável», «refutada» e «corroborada» no mesmo exemplo.
A Pergunta de Platt
But sir, what experiment could disprove your hypothesis?
But sir, what hypothesis does your experiment disprove?
Platt (1964), p. 352
Próxima Pergunta
Mesmo hipóteses arriscadas vivem fora dos livros. O que acontece quando olhamos para a história quotidiana da ciência?